A construção de novas práticas reparativas

Vivemos em uma sociedade onde muros são formados a partir de preconceitos e paradigmas culturais transgeracionais. Tais muros são invisíveis e se reforçam pela dificuldade de encararmos de frente, ou, até mesmo, de aceitarmos sua existência. A perpetuação destas estruturas, recheadas de valores socialmente aceitáveis e vistos como verdades absolutas, acaba, muitas vezes, servindo como defesa quando se pretende questionar a própria participação nesta reprodução. Para promovermos de fato a ruptura com estes antigos valores culturais ( entenda: ruptura não é o abandono da tradição e sim um novo olhar agregador sob está) é necessário desnudar tais muros, torná-los visíveis, para, a partir do desconforto, provocarmos as mudanças.


Uma das nossas grandes heranças culturais, que atravessa séculos, é a desigualdade entre homens e mulheres e, mesmo que este tema esteja hoje frequentemente na pauta dos debates públicos, é comum ouvirmos mulheres fazendo afirmações como:

"Comigo nunca ocorreu nada!";

"Isto é coisa de mulher fraca!";

"Já conquistamos os mesmos direitos, não?!".


Diante deste conjunto de afirmações, podemos nos perguntar: por que existiriam, então, tantas políticas de reparação para a mulher, como a Lei Maria da Penha, as delegacias da mulher, os abrigos para vítimas de agressão ou os programas públicos de amparo a gestantes? Simples. Para chegarmos a essa equidade entre homens e mulheres foi necessário uma reparação. Porque nós, mulheres, não tivemos as mesmas oportunidades de participação e espaço, concedido aos homens ao longo do processo de evolução da sociedade.


Atualmente, conhecemos como políticas afirmativas de reparação as cotas para ingresso em universidades ou as vagas para deficientes em concursos públicos. Conquistas de minorias que, através de um processo de articulação e debate, fizeram a sociedade dar-se conta destes muros e, através de políticas públicas e privadas, promover a reparação de um passado de desigualdades. Da mesma forma, há anos atrás, grupos de mulheres lutaram em busca de igualdade de direitos e participação na sociedade, parcialmente concedidos, através de políticas de reparação, fundamentais, mas não suficientes para reparar o resultado de séculos de opressão.

Importante lembrar que as mulheres conquistaram alguns direitos há pouco tempo, como o direito de votar, trabalhar, gerenciar empresas, ou simplesmente usar calças compridas. No Brasil, o primeiro voto (opcional) feminino ocorreu há exatos 82 anos. Até pouco tempo constava no Código Civil brasileiro que quando a mulher cometesse traição ou infidelidade, perderia todos os direitos obtidos nesta união, inclusive a guarda dos filhos gerados por ela.


Então, o que podemos concluir a partir disto? Somos vítimas? Não, de forma alguma. Porém, temos que considerar este passado de conquistas recentes ao julgarmos o comportamento de uma mulher, ou quando olhamos e avaliamos nosso próprio comportamento.

Estamos inseridas numa cultura recheada de valores que atravessam séculos. Vivemos sob a influência daqueles que nos antecederam, da herança deixada por gerações de mulheres que ajudaram a construir a nossa história, permeada por grandes lutas e importantes conquistas.


Cabe a nós garantir a continuidade do que já foi conquistado, evitar retrocessos e promover os avanços necessários.

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